Quem é o que


Não preciso duvidar de mim para que possa fazer parte daquilo que sou. Sou aquilo que fui e vou continuar sendo até cansar de ser. Não posso supostamente me esconder de mim por tanto tempo que não queira mais voltar pra dentro de mim mesmo de novo algum dia, de alguma forma, estar por vir aquilo que esperamos por tanto tempo, por vezes e sempre outras nos pegamos vagando em busca de algo ou alguém que queira fazer parte daquilo que a gente é sem, contudo, transformar ou roubar nossa identidade. Somos diferentes até quando queremos ser iguais, mas somos ainda mais iguais quando queremos ser diferentes.

Como se sente? Sente-se


Vira e mexe a gente sente o dissabor de sentir
sente muito no entanto não hesita em sentir
sente que vai morrer de sentir e, sentindo morre
morre sentindo um imenso sentimento sem sentido
e sem sentir se deixa sentir
se sentir pode ser um apelo
um medo de morrer de sem sentir
por isso é que se sente o tempo todo pra doer
pra distorcer e contornar as coisas sentidas
afrouxar e contorcer sentidos
sensível
sentindo
sentando
sem, no entanto
se sentir

O tangível não tingido


Sempre somos levados. De fato, não existe valentia que se sustente e seja substancial o suficiente para brecar um movimento natural da raça humana. Fazemos o que fazemos não porque queremos. Queremos por querermos não porque quisemos, mas porque um dia viríamos a querer. É assim, coisa de minuto: se precipitam e se agarram nos ponteiros feito varridos e atrasados, com medo de perder alguma coisa sendo que, no fim, vão perder muito mais de um jeito ou de todos. Não muito mais do que ficou pra trás, mas muito menos do que ficou lá na frente. O inalcançável. O inatingível. O tangível não tingido. O tangente latente lambando babando e indo e onde e quando e vezes e outra e outro e tanto! Mal posso esperar pra não esperar coisa alguma de novo. Desespero não. Receio de ser levado.

Em que ponto eu quero chegar


Oras, já era hora do meu envelhecimento. Não sei quando fica pronto ou em que tempo é o ponto, mas esse é o ponto no qual chegamos e pronto. A gente sempre chega a algum lugar mesmo que isso não leve a lugar nenhum. Partindo desse ponto, em que nada está pronto pra mim, eu não estou pronto pra nada também. Sempre acreditamos naquilo que estamos acostumados a acostumar. Embora cada um tenha um costume diferente, costuma ser bem verdade – também -, o contrário.

Frestas honestas


Hoje optei por não fazer o leitor de besta, não porque cansei de o fazer, mas porque não suporto ter de desfazê-lo depois. Portanto tudo o que ler desde desse aqui até este daqui, vai ser exatamente o esse o quê que quero dizer, está claro? É claro que está. Consintam, assim como sinto seus questionamentos. Nada é mais justo e apertado e livre e espaçoso que os questionamentos. Mas agora não é hora, agora é segundo e não tomo mais seu tempo. Acredite: quero que pense disso exatamente o que pensaria deste. “Escritazinha de merda esta que não escreve nada!”. Talvez me culpem e pequem. Não porque estou certa, mas porque vocês estão errados.

*Foto por Camila Crivelenti

Ouva o que ouver


Ouçam bem: sempre ouvimos muito bem. Temos ouvido pra isso, inclusive temos ouvido por aí que temos ouvido até demais, o suficiente para saltar pelos olhos os ouvidos. Dê ouvidos a isso. É absolutamente verdade já que hoje forçamos a vista até ficar vesgos pra que enxerguemos direito as tantas coisas juntas que de tão juntas e de tão muitas acabam embaçando a vista.

Acontece que há um tempo atrás, talvez no nascimento, estávamos condicionados a ouvir aquilo que era agradável aos ouvidos. Sim, em algum dia nós, seres novatos de música, aceitávamos bem tudo e somente aquilo que fosse música para os ouvidos. Experimentação musical e complexidade harmônica incomoda os ouvidos.

Naquela época, já nos divertíamos e nos deliciávamos uns aos outros através da descoberta sobre a capacidade de apreciação musical. “Um grande equívoco!” Esquisitos que brotavam me diziam. Rediziam e redigiam que música foi feita pra ser encarnada, sentida da pele aos ossos e que, na maioria das vezes, aquilo nunca tinha sido divertido e muito menos delicioso. Aceitei e aceitamos a oferta. Comprei as orelhas dos esquisitos.

Troca o disco, é hora de personalizar os ouvidos. Passado tempo, sentimos certa vez, que tudo aquilo que é agradável, é popular e por isso não é pessoal. Nos vemos então, obrigados a ouvir novamente, a repensar sonoramente uma estratégia de não sermos perseguidos por um bando de muitos com ouvidos fáceis de lidar.

Agora somos birrentos, ouvimos o que queremos e principalmente o que não queremos. Aprendemos a gostar e quando gostamos saímos de fininho do meio da multidão procurando sossego em música de desassossego. Queremos a quebra na estrutura dos refrões, muitas vezes nem queremos mais refrões, refratamos e refletimos no inverso das versões populares. Somos, finalmente, exilados das limitações do nosso universo musical de origem. E gostamos.

Mas tem um fato. Tem barulho demais! Faz barulho demais dentro da cabeça e estoura os tímpanos. É de partir os ouvidos. Tenho dor de orelhas desde que comecei a me incluir nesses passeios graves e demorados. Um especialista sugeriria que diminuíssemos a dose de complexidade harmônica das músicas nas oportunidades que tivermos. Mentira, ninguém disse isso, no entanto aconteceu.

Acontece que agora, hoje mesmo, nos pegamos cansados de ouvir o tempo todo tanta coisa de tudo do todo do tempo e de outras coisas mais. Sentemos, com a língua pra fora, e repousemos os ouvidos. Coloco desta forma: um dia nossa música foi o que foi, depois passou a ser o que é. É, só isso que é.  Música vai e volta e eventualmente é delícia de apreciação, outras desgosto de depreciação popular, farta de ser popular mas louca pra ser universal. POP é muita coisa. Tomem cuidado pra que não me interpretem mal e se dêem bem. Ouçam nossas novas vozes dizendo que beleza é essencialmente isso. Isso o quê? Isso! Só isso.

Arte por Camila Crivelenti

Encanadamento


Arte por Julia Paiva

Detesto soar satisfeita. Nós próprios julgamos ridículo sair saltitando soando satisfeitas. E por isso mesmo hoje eu pretendo não transparecer nenhum indício de satisfação. Por satisfeitos entendamos como quando entendemos a nós mesmos, lembrando que o tamanho da nossa admiração por nós mesmos sempre será equivalente ao tamanho que verdadeiramente é, e quando não é, nos pegamos afundando contra a enchente.

Tão semelhantes, tão distantes semelhantemente. Aquilo que aprisiona nunca foi motivo de risada. Não até agora (e aqui ri). Sou um veado-hipopótamo, hipócrita, veementemente atribulado e tormentoso frente as coisas que sorriem quando estão satisfeitas. Se estão satisfeitas não deveriam estar aqui, nem ali, deveriam era mesmo estar em meio ao lugar das coisas satisfeitas, que sempre ficam por aqui e não pretendem ir a lugar nenhum, sempre foram comportadas e nunca sequer hesitaram ir embora. Um ataque violento para com nós entendedores de nós mesmos. Malditas criaçõezinhas desprezíveis, não-dignos de qualquer e todo tipo de vestígio de essencialidade a parte.

Enfim pergunto aos senhores, o que é que conseguem ver só de ler tudo que eu já disse até aqui? Sei que entenderam tudo. Mesmo que saibam que não. É claro, quando se está escrito já está entendido, isso não quer dizer subentendido. É isso, o que está entendido não se vai explicar e o sub fica sob qualquer outro lugar feito pra se esconder os sub’s sobre todas as coisas que não se deve falar. Por isso e só por isso me calo e me forço chorar. Claro, essa é, calculadamente, a hora perfeita pra se fazer de vítima.

O mundo: um emaranhado de fios telegráficos em eriçamento. (Clarice Lispector)